Correndo desesperada, ela veio do horizonte. Corria como que evitando ser tocada pelos pingos de chuva, quando a chuva vem. Corria como se percebesse que a vida estava prestes a lhe deixar os olhos, como se a estivesse perseguindo, para resgatá-la.
Passou por mim, com cabelos esvoaçantes, deixando o vácuo, e depois a rajada de ar com o perfume inebriante. Caiu-lhe uma flor, branca e delicada, que se alojou entre meus pés. Tive o ímpeto de correr atrás dela, da garota. Mas eu estava mole, sem forças, petrificada. E ela foi, sumiu com o vento. Eu percebi, estonteada, quase a desabar no chão, que meu amor da vida tinha acabado de se esvair.
Então ouvi um murmurar, logo atrás de mim. Virei-me e vi um chapéu torto, com um charuto esfumaçado por baixo. O charuto oscilava conforme os movimentos da boca entre-aberta, permitindo que saísse dali a voz grave: “Corre. Não deixes a vida esvair-se de ti. Se te encanta o perfume, se te seduz a existência, não deixes que ela fuja. Vai.” Ah! Era o que eu necessitava, no momento, para sentir, novamente, emergir o impulso. Sem nem mais um respiro sequer, minhas pernas começaram a correr atrás da garota. A correr desesperadamente. Como se eu evitasse ser tocada pelos pingos de chuva, quando a chuva vem. Como se eu percebesse que a vida estava prestes a me deixar os olhos, como se a estivesse perseguindo, para resgatá-la.
Perfeito.. Esse começo/ fim/ começo foi realmente brilhante...
ResponderExcluirSempre tenho emoções boas ao vir aqui e ler o que você escreve!
Bjus
=*